UFABC vs. Revista Veja

Reitoria da UFABC comenta sobre reportagem da revista Veja

A Reitoria da universidade divulgou esclarecimentos e comentários sobre a matéria "Pecados pouco originais", da revista "Veja", publicada na edição de 7 de abril e reproduzida abaixo. A reportagem aborda a expansão das universidades públicas e contém citações referentes à UFABC
Leia o texto de esclarecimento da UFABC:

"A respeito da reportagem 'Pecados pouco originais', publicada na edição da revista 'Veja' de 7 de abril, cumpre esclarecer:

1 - A informação de que, na UFABC, "cada grupo de seis alunos conta com um professor" possivelmente foi obtida pela divisão do número de alunos matriculados em 2009 (2617) pelo número de professores que inclui os contratados em 2010 (414). Se as duas informações forem medidas no mesmo instante do tempo, por exemplo, em 2010, então aos 2617 alunos de 2009 há que se somar os 1700 alunos matriculados em 2010. Com isso, o mesmo quociente passa a quase 11 alunos por professor, aproximadamente o dobro do informado na reportagem. Cumpre registrar, todavia, que esses números pouco significam, uma vez que são métricas usualmente empregadas em instituições bem estabelecidas, funcionando em regime estacionário, mas que não servem como referência àquelas em fase transitória, de implantação. A UFABC foi concebida para ter uma relação de um professor para cada grupo de 18 alunos, meta que deverá ser atingida nos próximos cinco anos.

2 - A estranha informação de que, na UFABC, "nenhum reitor ficou no cargo mais de um ano" corresponde rigorosamente ao oposto da verdade factual, já que nenhum reitor ficou no cargo menos do que um ano.

3 - Na transcrição da longa entrevista (disponível em http://www.ufabc.edu.br/index.php option=com_content&view=article&id=3124&Itemid=183)
concedida pelo assessor da reitoria, Julio Facó, à repórter da revista Veja, está registrado que a evasão do primeiro ano letivo da UFABC, da ordem de 40%, constituiu-se em fato isolado, uma vez que não se repetiu nos anos seguintes. Ela ocorreu, sobretudo, por conta da aprovação dos alunos da UFABC em outras instituições públicas que existem há muitas décadas e que, naturalmente, gozam de reputação mais bem estabelecida do que a então recém-criada UFABC. É esse o contexto da citação da revista "O que falta à universidade é consolidar o nome". Cumpre registrar que esse fenômeno não é novo e nem surpreendente, e que instituições como ITA e Unicamp, para citar apenas dois exemplos, passaram por circunstâncias idênticas nas suas fases de implantação.

4 - A reportagem não cita a fonte da informação de que nas universidades federais brasileiras "cada aluno custa à União 13.000 dólares por ano" nem diz a que ano esse número se refere. Esse número contrasta e é aproximadamente o dobro daquele disponível no portal do MEC (http://portal.mec.gov.br)
, onde se lê que "na educação superior - graduação e pós-graduação -, o investimento por aluno ficou em R$ 12.322", dados referentes a 2007. Esclarecendo, os termos "custo por aluno", usado na reportagem, e "investimento por aluno" empregado no portal do MEC são sinônimos e dizem respeito ao mesmo tipo de cálculo. (disponível em http://www.ufabc.edu.br/index.php?option=com_content&view=article&id=13128:investimento-por-aluno-na-educacao-basica-e-superior-esta-mais-equilibrado&catid=211)

5 - Novamente, a reportagem não cita a fonte da informação de que "o Brasil responde por apenas 1,8% das citações em revistas de relevo internacional" nem diz a que ano ela se refere, tornando difícil qualquer contraponto. Cabe o registro, contudo, que, de acordo com os dados da Incites, da Thomson Reuters, que podem ser encontrados no portal do MCT, entre 2000 e 2008 a produção científica medida pelo número de publicações em revistas internacionais indexadas triplicou (de 10.521 para 30.415) e a participação do Brasil no total dessas publicações dobrou (de 1,3% para 2,6%). Nesse ano de 2008 o Brasil atingiu a 13a colocação no ranking mundial de artigos publicados em revistas especializadas ficando, por exemplo, pela primeira vez na história, à frente da Rússia. (http://www.mct.gov.br)


6 - Uma vez mais, a reportagem não cita a fonte nem a que ano se refere a informação de que "um de cada quatro jovens" brasileiros ingressa no ensino superior. De acordo com os dados do Instituto de Estatística da Unesco (http://www.uis.unesco.org/)
, em 2005, ano da lei de criação da UFABC, essa proporção no Brasil era de apenas 16%, enquanto que na Argentina e no Chile elas se aproximavam de 60 e 50%, respectivamente.

Com relação a este último assunto, todavia, cabem algumas reflexões adicionais. A conhecida ociosidade média das vagas disponíveis nas faculdades e universidades particulares brasileiras (em torno de 50%) comprova que a maior barreira de entrada no curso superior que enfrentam os jovens brasileiros já não está no vestibular, mas em dois fatores: o primeiro e principal deles, certamente, é a impossibilidade de pagar pelo curso. E o segundo, mas não menos importante, está no fato de que as escolas privadas, que respondem por mais de 80% das vagas, tendem a oferecer um número muito grande de vagas em cursos de baixo custo de implantação, mas que podem não ser, necessariamente, as mais desejadas pelos alunos que concluem o ensino médio.

A expansão da rede federal de ensino superior é uma forma de enfrentar esse problema. A demonstração de que, mais do que uma política de Governo, essa é uma política de Estado, pode ser aferida pelas palavras do Senador Romeu Tuma (DEM-SP), por ocasião da discussão da lei de criação da UFABC. Membro de um partido que, como é sabido, faz oposição ao governo, o senador paulista pediu a palavra para pedir a aprovação do projeto justificando que ele "é importantíssimo, já que contempla uma região fundamental, do ponto de vista industrial e econômico, para o país e principalmente para o Estado de São Paulo. Além disso, é grande o número de jovens que lá se encontram para entrarem na universidade." O projeto foi aprovado por unanimidade.


Concluindo, ainda que nenhum cientista brasileiro jamais tenha ganhado o Prêmio Nobel, é sabido que muitos foram merecedores dele, como o físico César Lattes e o médico Carlos Chagas, para citar apenas dois exemplos.

Finalizando, a UFABC defende e prega as liberdades de idéias e de expressão mas, em harmonia com as cláusulas pétreas da melhor prática científica e dos mais fundamentais valores acadêmicos, defende também que a defesa de idéias e teses se dê com base em verdades factuais e no emprego de dados íntegros, levantados com rigor e precisão. Como visto acima, ao contrário do que se observa na referida reportagem."

Leia, a seguir, a reportagem da revista Veja:

Pecados pouco originais

Com vagas ociosas e ingerências indevidas, as novas federais nascem com os mesmos problemas do caro e ineficiente ensino superior público brasileiro

As universidades públicas brasileiras tradicionais, com as honrosas exceções de sempre, apresentam produção científica modesta e um dos mais elevados custos por aluno do planeta. Suas coirmãs mais novas criadas nos últimos anos vieram ao mundo com defeitos de mesma natureza. Muitas dessas universidades têm quadros de professores inflados, salas de aula praticamente vazias e taxas de evasão que fazem refletir sobre sua real utilidade. Elas se parecem com as escolas mais maduras até mesmo na coexistência de ilhas de excelência com escolas de desempenho sofrível.

Oito dessas novas instituições já tiveram cursos avaliados pelo Exame Nacional de Desempenho de Estudantes, o Enade. Em cinco delas, em uma escala de 1 a 5, as notas foram excelentes, beirando o limite superior. Nesse patamar se destacam a Escola de Ciências da Saúde de Porto Alegre e a Tecnológica do Paraná. Duas escolas ficaram com a nota 3, e com a pior avaliação, a nota 1, aparece a Federal do Recôncavo da Bahia.

Um levantamento de treze instituições inauguradas a partir de 2005 revela que o número de vagas ociosas gira em torno de 20%, chegando a atingir 40% - mais de quatro vezes a média das federais que funcionam há mais tempo. Tome-se o exemplo da Universidade Federal do ABC, na cidade de Santo André, em São Paulo. Ali se está diante de um caso de inoperância difícil de ser superado. Desde que ela abriu as portas, em 2006, nenhum reitor ficou no cargo mais de um ano. A evasão escolar chegou a 46%.

Esse desastre ocorre em uma instituição onde cada grupo de seis alunos conta com um professor - um luxo que não se pode achar nem nas mais caras escolas superiores privadas dos países mais ricos do mundo. Quem paga o descalabro? Você, leitor, com os impostos que lhe consomem o suor do rosto durante cinco dos doze meses do ano. Confrontado com o cenário absurdo, Júlio Facó, assessor da reitoria, minimiza o problema: "O que falta à universidade é consolidar o nome, e só".

A Federal do ABC é uma das treze universidades cuja faixa inaugural foi cortada pelo presidente Lula - quatro delas criadas do zero e as outras nove, que já funcionavam como faculdades, alçadas à condição de universidade ao cabo de processos de expansão. A imponência dos prédios contrasta com a alta ociosidade nas salas de aula. Isso se deve ao fato de que muitas das escolas foram erguidas em regiões de demografia rarefeita ou distantes de sua clientela potencial.

A Universidade do Recôncavo da Bahia é um exemplo disso. Ela foi instalada em Cruz das Almas, cidade de 57 000 habitantes. Em um país como o Brasil, em que das 5 565 cidades cerca de 500 possuem população acima de 50 000 habitantes, Cruz das Almas não pode ser classificada como uma localidade erma. Com apenas 800 jovens matriculados no ensino médio, a cidade da Bahia, nacionalmente famosa por sua temerária "guerra das espadas", travada durante os festejos de São João, não tem densidade educacional para abastecer de alunos uma universidade. Diz o consultor Ryon Braga: "A demanda real, na maioria dos casos, foi solenemente ignorada".

O tipo de curso oferecido por essas instituições é outro fator que contribui para o desperdício dos impostos e a imensa ociosidade. As novas federais têm como um dos focos a formação de professores, uma carreira nobre, necessária, mas que atrai apenas 2% dos jovens brasileiros que concluem o ensino médio. O reitor Dilvo Ristoff, da Universidade Federal da Fronteira Sul, sediada em Chapecó, em Santa Catarina, dá voz ao pensamento oficial: "É um dever patriótico oferecer cursos de licenciatura".

Dever mesmo seria conseguir alunos. Oito cursos de licenciatura da escola do professor Ristoff não tiveram sequer um candidato por vaga na sala de aula. A Federal do ABC, por seu turno, surgiu para atender a uma demanda dos sindicatos da região, que hoje se fazem presentes na universidade em mais de uma frente. Além de organizarem debates no núcleo de ciência e tecnologia, eles influenciam projetos de pesquisa.

No município de Laranjeiras do Sul, no interior do Paraná, a federal da Fronteira Sul, que funciona em outros quatro endereços, fincou um campus próximo a um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Na semana passada, durante a aula inaugural dos cursos de educação do campo e de desenvolvimento rural, ambos de nível superior, agitavam-se bandeiras do movimento aos gritos de "Viva o MST". Será preciso aferir com frequência a qualidade do ensino oferecido por essas instituições sob pena de que elas sirvam apenas de foco de apoio logístico a invasores de terras.

Ninguém discorda de que é imperativo para o país ampliar o acesso ao ensino superior, em que só ingressa hoje um de cada quatro jovens - um terço da média registrada nos Estados Unidos. Sabe-se que 50% dos alunos brasileiros que se formam no ensino médio a cada ano, um grupo de 1,2 milhão de estudantes, estão longe da sala de aula porque não conseguiram vaga numa faculdade pública, tampouco têm dinheiro para arcar com uma particular. A questão que se coloca é como incluí-los de forma menos dispendiosa e mais eficaz.

As universidades públicas brasileiras, afinal, chamam atenção no mundo inteiro por dragar altas somas de dinheiro. Cada aluno custa à União 13.000 dólares por ano. Esse valor, em relação ao PIB per capita do país, é o triplo do custo por estudante nos países da OCDE (organização que reúne os mais desenvolvidos), que oferecem, por sua vez, um ensino muito melhor.

O dado se torna ainda pior se confrontado com a produção acadêmica, quesito em que o Brasil responde por apenas 1,8% das citações em revistas de relevo internacional. Até hoje, nenhum pesquisador brasileiro foi agraciado com um Prêmio Nobel, ao passo que os argentinos, por exemplo, já levaram cinco.

Resume o economista Claudio de Moura Castro, articulista de VEJA e especialista em educação: "Criar novas universidades públicas é reproduzir um sistema de ensino ineficiente, que envolve altos gastos e baixa produtividade".

O programa de expansão das universidades federais do governo Lula, que já criou 63 000 vagas desde 2003, consumiu 1,6 bilhão de reais. Solução menos onerosa, concordam os especialistas, seria fazer uso de pelo menos uma parte de 1 milhão de vagas atualmente ociosas em faculdades particulares, por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni), do próprio governo federal. Ao conceder bolsas a jovens de renda mais baixa, o ProUni abarca hoje apenas 8% dos egressos do ensino médio que ficam de fora da sala de aula.

A experiência internacional enfatiza ainda a relevância de trazer ao debate outra mudança no ensino superior brasileiro, esta radical: cobrar mensalidade em universidades públicas daqueles que podem pagar. Diz o economista Gustavo Ioschpe: "Foi o que tornou financeiramente viável a existência de universidades que primam pela excelência nos países mais desenvolvidos".

A questão do acesso à universidade, no entanto, não pode passar ao largo de um problema anterior, o da péssima qualidade do ensino médio, do qual só saem 35% dos jovens que ingressaram nele. Desatar esse nó deveria ser prioritário - mas seria, sem dúvida, bem menos visível para os eleitores do que abrir novas universidades a toque de caixa.
(Roberta de Abreu Lima, com reportagem de João Figueiredo)
(Veja, 7/4)

Fonte: Jornal da Ciência

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